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TIBETE – EVEREST NORTH FACE BASE CAMP a LAO TINGRI
02/10/2009, 22:50
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Everest - 8.848 m

Everest - 8.848 m

Durante a noite, o forte odor que se libertava do fogão/salamandra alimentado com excrementos secos de yak, aliado ao monóxido de carbono que se misturava na já de si rarefeita atmosfera da tenda, tornou esta noite um verdadeiro suplício. Algumas vezes  perguntei-me em silêncio o que estávamos ali a fazer, o que queríamos provar, pois nada parecia justificar racionalmente o que estávamos a passar. Muito antes das 0600 já ninguém conseguia dormir. Lentamente, fomo-nos erguendo das nossas improvisadas camas e procurámos aquecer corpo e alma numa espécie de chá feito de água quente em que flutuavam pequenas raízes não sei bem de quê. Calçadas as luvas e colocado o gorro na cabeça, o João espreitou por uma nesga da tenda e regressou imediatamente ao nosso frágil refúgio tibetano. No exterior, não se via nada devido ao vendaval que soprava um frio que gelava os ossos e arrefecia o nosso ânimo. Durante mais de hora e meia não nos foi possível saír do nosso abrigo. O vento penetrava pelos buracos da tenda e nem sequer nos aventurámos a tentar ir à zona de “higiene colectiva” existente a menos de 100 metros do local onde estávamos. Pela minha parte, mais do que o frio, tinha receio de perder o sentido de orientação e não conseguir voltar à tenda – pois não se conseguia ver nada a mais de 2 ou 3 metros. Por volta das 0800, repentinamente, tudo mudou e lá partimos com um Sherpa em direcção ao North Face Base Camp, situado num desnível de cerca de mais 200 metros e a 4 kms de distância. Durante o pedregoso mas acessível trajecto, o vento não parou de nos fustigar, embora com menor intensidade e, pela primeira vez, soube o que era sentir as extremidades do corpo começarem a ficar geladas devido ao frio. Reajustei o passa-montanha, o gorro e o capuz, e tentei fazer alguns movimentos com os dedos dos pés e das mãos enquanto avançávamos lentamente. Menos de 1 hora depois de termos deixado a tenda, começámos a aproximar-nos do Base Camp e, simultaneamente, a usufruír os primeiros raios de sol que tinham vencido a enorme “parede rochosa” que antes nos tinha impedido de receber algum conforto térmico.  

Próximo do North Face Base Camp

Próximo do North Face Base Camp

Chegados ao Base Camp e depois de recuperar alguma energia encostados a uma enrme rocha que, virada para o sol, nos serviu de apoio e protecção, começámos a tomar consciência da magnificência daquele local. Não há palavras que traduzam o que senti(mos). Aquele enorme planalto a mais de 5.000 m de altitude terminava num triângulo quase perfeito e com mais de 3.500 m de altura de rocha à nossa frente. O topo do Everest estava ali tão perto e tão inacessível, com os seus 8.848 metros de altitude. O ar rarefeito, o vento gélido, o odor dos muitos yaks que pastavam pachorrentamente; a azáfama de alguns elementos de várias expedições de múltiplas nacionalidades que por ali tinham montado o acampamento base; o movimento de alguns alpinistas que por ali deambulavam sem que se percebesse muito bem o que procuravam ou faziam; o famoso “penacho” perfeitamente visível no topo do mundo, enfim, um sem número de “pormaiores” que seria fastidioso tentar enumerar; tudo isto e tudo o que nunca aqui conseguiria transmitir, responderam de um modo natural às minhas dúvidas noctívagas sobre o sentido de todo o esforço e empenho colocado para ali chegar: é indescritivelmente fabuloso; ficamos reduzidos à nossa mais ínfima insignificância e subjugados pela grandeza do local.

Everest North Face Base Camp

Everest North Face Base Camp

 

Parte do trajecto de acesso desde a tenda até ao Base Camp

Parte do trajecto de acesso desde a tenda até ao Base Camp

Base Camp

Base Camp

EVEREST

EVEREST

O Tecto do Mundo

O Tecto do Mundo

Depois de refeitos do pasmo e recompostos do cansaço e do frio, obtidas as fotografias para mais tarde recordar, regressámos interiormente preenchidos ao local da tenda, a fim de partirmos no HDJ ainda nesse fim de manhã através de uma pista com muitos quilómetros à cota dos 5000 metros em direcção a Lao Tingri.

Everest próximo de Rombuk e a caminho de Lao Tingri

Everest próximo de Rombuk e a caminho de Lao Tingri

Isolados a mais de 5000m na pista para Lao Tingri

Isolados a mais de 5000m na pista para Lao Tingri

Depois das sensações deixadas pelo Everest e apesar de rodarmos completamente sózinhos a cerca de 5000m e rodeados por montanhas com mais de 6000 e picos com mais de 7000, sentíamo-nos infantilmente em relativa segurança. Embora isolados, o nosso guia tinha rede no seu telemóvel chinês, que mantinha uma ligação mais ou menos estável a algumas antenas repetidoras existentes em locais estratégicos. A paisagem continuava magnifica.

Pista para Lao Tingri

Pista para Lao Tingri

Pista para Lao Tingri

Pista para Lao Tingri

Acampamento prx de Lao Tingri

Acampamento prx de Lao Tingri

Lao Tingri é um pequeno povoado que apenas ganha sentido por estar junto da Friendship Highway que é uma estrada com mais de 5000 quilómetros, a grande maioria, alcatroada, que permite atravessar por pista a cordilheira dos Himalaias, em direcção ao Kodari e à famosa Friendship Bridge, que faz a separação física entre o Tibete e o Nepal – o nosso destino seguinte.

Lao Tingri

Lao Tingri

Lao Tingri

Lao Tingri

Para terminar um dia repleto de emoções fortes, havia que jantar e deitar cedo, pois deveríamos acordar pelas 0500 na madrugada seguinte – e garanto que foi por uma boa causa, apesar do frio…



TIBETE – SAKYA AO EVEREST

Como referi no post anterior, o acordar de Sakya foi (até então) o que mais nos custou. Creio que o gerador do “hotel” estava congelado, pelo que tivemos de fazer tudo com a luz dos nossos frontais. O pequeno-almoço foi o mais frugal até então e o dificilmente bebível chá de raízes não augurava nada de bom para os próximos dias. No entanto, as expectativas relativamente ao percurso até Rombuk e de fazer o trajecto até ao North Face Everest Base Camp relegavam esses ínfimos pormenores para a sua dimensão mais minimalista.

Gyatso La Pass - Reserva Nac Qomolangma

Gyatso La Pass - Reserva Nac Qomolangma

Pouco depois desta passagem e após superar o controlo militar de acesso, entra-se na pedregosa pista de acesso ao Everest Base Camp, com cerca de 90 kms e duração de viagem prevista de 4 a 6 horas.

A mais de 4.800m e prx de ver o Evereste

A mais de 4.800m e prx de ver o Evereste

Ao fundo, ainda a cerca de 80 kms em pista, o Everest

Ao fundo, ainda a cerca de 80 kms em pista, o Everest

Do mesmo local c/ objectiva de 350 mm

Do mesmo local c/ objectiva de 350 mm

Pass (La) a mais de 5.000 m

Pang La pass - a mais de 5.000 m

Após passarmos Rombuk (ou Rongbuk) dirigimo-nos para um local de acampamento equidistante ao North Face Everest Base Camp (5.150 m). O mais famoso montito do planeta, com os seus 8.848 metritos de altitude, estava completamente tapado pelas nuvens – apesar de sabermos que estava “ali ao lado”.   Talvez uma hora depois de termos chegado e enquanto descansávamos um pouco, disseram-nos que o vento tinha afastado temporariamente a neblusidade e deparámo-nos com o espectáculo que segue…

Everest desde o n/ acampamento

Everest desde o n/ acampamento

idem

idem

Escusado será dizer que não há relato ou fotografias que consigam traduzir as sensações daquele momento: o deslumbramento do lugar e daquele imenso triângulo de pedra que fascina tanta gente, o isolamento, o vento cortante e gélido, a dificuldade em respirar, o arrastar dos nossos passos e a “tonelada” que parecia pesar a máquina fotográfica… Aproveitando aquela aberta, decidimos caminhar o primeiro quilómetro (ou menos) dos cerca de 4 que faltavam para o Base Camp.

Treino p/ o dia seguinte

Treino p/ o dia seguinte

Era difícil mas, aparentemente, realizável. Brincámos como crianças, tentámos imitar desajeitados passos de balet e, repentinamente, o tempo começou a fechar e tivemos de regressar o mais depressa que conseguíamos na nossa exasperante lentidão.

O nosso moderníssimo alojamento

O nosso moderníssimo alojamento

Entrados na tenda, o forte cheiro a excremento de yak queimado (o “carvão” para aquecer água), feriu a sensibilidade dos nossos delicados narizes habituados a odores mais suaves e aumentou a nossa dificuldade em respirar. A noite foi de insónias para todos. Pela minha parte, com já nem recordo quantas camadas de roupa e umas pesadas mantas tibetanas em cima, só conseguia respirar se me deitasse lateralmente, de modo a que o seu peso ficasse suportado pelos ombros e não pelo peito. Durante a noite, misturava-se o frio que trespassava a tenda quando sopravam rajadas de vento mais forte com o delicado perfume do nosso primitivo aquecimento central, tudo somado à ansiedade sobre se conseguiríamos chegar ao Base Camp ou se alguém não teria condições – situação em que tínhamos combinado antecipadamente como proceder para não colocar ninguém em risco. Confesso que, salvo numa já remota situação de doença, foi das piores noites da minha vida. E as 06H00 que nunca mais chegavam…



TIBETE – SHIGATSE A SAKYA
11/09/2009, 20:45
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Com as primieras luzes da manhã, deixámos Shigatse rumo a Sakya (2.000 habitantes – 4.300 metros), última etapa antes da entrada na pista com destino ao Everest e ao nosso base camp, próximo de Rombuk. A opção de reservar um dia para fazer (ou não) o desvio por Sakya tinha sido tomada no planeamento da viagem e tinha três abordagens:  i) servir como um dia dispensável para compensar qualquer atraso anterior;  ii) permitir mais uma jornada em elevada altitude caso a aclimatação não estivesse a correr bem; iii) servir como base de espera, caso surgisse algum impedimento no acesso ao Everest – e foi precisamente esta última situação que nos levou a decidir passar um dia em Sakya: i.e., o mau tempo que nos informaram haver na pista para Rombuk.  Dito isto, Sakya é um local fora das preferências dos ocidentais e isso confirma-se , entre outros, pela total ausência de forasteiros e pela  propositada deslocação de um elemento dos serviços de segurança chineses que nos esperou várias horas na entrada do mosteiro e, depois de verificar que ali íamos efectivamente pernoitar, desapareceu sem deixar rasto. Só falam tibetano ou chinês, mesmo no único “hotel” existente.  Acolhe o principal mosteiro fortificado da facção budista Sakyapa, onde se guardam mais de 40.000 volumes das respectivas escrituras sagradas.  Originariamente (ano 1073) eram 2 mosteiros mas um deles apenas permanece como ruína.  O nome do local (Sakya) significa terra cinzenta e tem a ver com a coloração dos solos circundantes. E, verdade seja dita, não tem qualquer particular interesse que justifique o desvio – excepção ao mosteiro, alguns trilhos próximos e as espectaculares paisagens circundantes.

Sakya

Sakya

Trabalho comunitário Sakya

Trabalho comunitário Sakya

Mosteiro de Sakya

Mosteiro de SakyaMosteiro de Sakya

 Depois de visitar o mosteiro e percorrer alguns trilhos curtos à volta da cidade-aldeia, nada mais havia para fazer excepto servir de objecto da curiosidade de adultos e crianças e obter umas fotos para mais tarde recordar.

Mosteiro de Sakya

Mosteiro de Sakya

Monges Sakyapa

Monges Sakyapa

Timida curiosidade

Timida curiosidade

Depois da primeira desilusão da viagem, as expectativas quanto à pista para o Everest e posterior travessia da cordilheira dos Himalaias só podia aumentar – e nessa noite, o frio e o nervoso miudinho não deixaram muito espaço ao sono.  A alvorada foi por volta das 05H00, com a água congelada no rio, nas canalizações, sanitas e afins…  Acordar e levantar, foi um processo lento e algo doloroso pela primeira vez.



TIBETE – AS PESSOAS
12/08/2009, 23:38
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TIBETE – GYANTSE A SHIGATSE (Shalu e Tashi Lumpo)
03/08/2009, 21:48
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Ao 10º dia de viagem, partimos para Shigatse numa jornada sem grande estória, percorrendo uma estrada muito bonita, perfeitamente projectada, defendida por impressionantes barreiras de neve  e, pasme-se, bem alcatroada e sem vestígios de buracos, bermas degradadas e todas as sequelas que vemos na nossa terrinha quando vamos à serra da Estrela no Inverno – isto, apesar de circularmos ao dobro da altitude… Antes da chegada a Shalu tivemos de parar em mais um dos controlos militares, com este magnífico enquadramento paisagísticoIMG_1133_mini

Reiniciada a viagem, ainda antes da chegada a Shigatse, cortámos à esquerda para uma pista de cerca de 3 kms que vai bordejando alguns terrenos agrícolas, rumo ao mosteiro de Shalu – o único existente no Tibete com arquitectura Mongol (sec. XI). O mosteiro, que fica paredes meias com uma pequena aldeia, tem uma enorme fila de altos zimbros que proporcionam preciosas sombras e protecção contra os áridos ventos.No interior, pontificam inúmeros frescos do sec XIV representando mandalas tântricas.Dos terraços, tem-se uma vista soberba sobre as montanhas adjacentes e a pequena aldeia. Na altura, alguns dos habitantes colocavam “bostas” de Yak nos telhados ao sol, um óptimo antídoto para as moscas e melhor “lenha” para o fogo.

Mosteiro de Shalu

Mosteiro de Shalu

Mosteiro de Shalu - arquitectura Mongol

Mosteiro de Shalu - arquitectura Mongol

Mosteiro de Shalu

Mosteiro de Shalu

armazenamento de combustível sólido

armazenamento de combustível sólido

Como habitualmente, depois de chegarmos a Shigatse e descansar alguns minutos, começámos o reconhecimento da cidade. Shigatse (significa: o melhor da terra) é a segunda maior cidade do Tibete e foi duramente ocupada pelos chineses que lhe retiraram “espiritualidade” e a quiseram transformar num baluarte do “socialismo”. O resultado, é que fora das paredes do Tashi Lumpo, a cidade não passa de um organizado bazar chinês. No reverso, um bom hotel, com uma réplica em miniatura do Palácio Potala em Lhasa – talvez para suavizar consciências pesadas 🙂

rua "típica" de Shigatse

rua "típica" de Shigatse

rua "típica" de Shigatse

rua "típica" de Shigatse

Hotel Jianzang

Hotel Jianzang

A circunstância da cidade ser um bazar vivo, dava-nos a oportunidade de comprar os últimos mantimentos para os dias que se seguiam, rumo a Sakya, Rombuk, Everest e Lao Tingri – onde, à excepção de Sakya, teríamos de ser totalmente autónomos. Assim, as compras e a visita ao Tashi Lumpo ficaram para o dia seguinte – até porque o mosteiro, só por si, vale a visita. Fundado em 1447 pelo primeiro Dalai Lama, em 1959 era um dos quatro maiores mosteiros Gelugpa, com 6000 monges. No seu interior permanecem, entre outros “tesouros” culturais,  os pergaminhos de filosofia tântrica conhecidos como tratsang. Com um enquadramento fabuloso na base da montanha, sobressaem os telhados dourados e o grande anfiteatro interior.O conteúdo deste complexo monástico é riquíssimo em história, estórias e documentos, não cabendo desenvolvê-los nos contornos modestos deste blog – fica a nota e algumas fotos, pois que os mais curiosos encontrarão facilmente muita informação na net.

Vista geral do Tashi Lumpo

Vista geral do Tashi Lumpo

Tashi Lumpo

Tashi Lumpo

Tashi Lumpo

Tashi Lumpo

Tashi Lumpo

Tashi Lumpo

Tashi Lumpo

Tashi Lumpo

Tashi Lumpo

Tashi Lumpo

Tashi Lumpo

Tashi Lumpo

Monjas do Tashi Lumpo

Monjas do Tashi Lumpo

Tashi Lumpo

Tashi Lumpo

o n/guia encontra ancião da remota aldeia em peregrinação

o n/guia encontra ancião da remota aldeia em peregrinação



TIBETE – GYANTSE DZONG E PELKOR CHODE
31/07/2009, 16:01
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De Lhasa a Gyantse

De Lhasa a Gyantse

Provenientes de Lhasa, chegámos a Gyantse a meio da tarde. Como já referido, as condições meteorológicas tinham melhorado mas estavam longe de ser famosas. Depois de uma horita de descanso, calçámos as botas, vestimos os blusões técnicos e decidimos ir fazer o reconhecimento da cidade e espreitar a oportunidade de obter alguns bonecos com o sol do fim de tarde. Um pouco frustrados pela circunstância de só termos tido visibilidade sobre Gyantse já muito próximo (a aproximação pela pista que desce a montanha foi realizada debaixo de forte nevoeiro) fizemos as primeiras centenas de metros abrigados do vento e protegidos pelas casas da principal rua da cidade – um autêntico “boulevard” fervilhando de actividade comercial, característica de uma cidade que funciona(va) como entreposto das várias rotas de abastecimento do Tibete e é a terceira mais importante do país (alt. 3.977 m e 8.000 habitantes aquando da ocupação chinesa).

Gyantse Kumbum - imagem da internet

Gyantse Kumbum - imagem da internet

Os poucos raios solares que rasgavam as pesadas nuvens davam-lhe uma luminosidade de nostálgicos tons pastel. No final da rua, ao virarmos à esquerda, ficámos imediatamente fascinados pela magnificência do castelo de Gyantse Dzong e fomos subindo até à entrada do  Pelkor Chode . Entretanto, a luminosidade diminuiu muito rapidamente e procurei um local que me permitisse perceber o motivo. A menos de 500 metros aproximava-se rapidamente um sistema de baixas pressões com muito mau aspecto. No passo mais rápido que conseguimos, dirigimo-nos para o primeiro abrigo que encontrámos, sem conseguirmos evitar ser empurrados por uma força descomunal que projectava violentos “dardos” de neve na horizontal. Num ápice, as ruas ficaram desertas, as portas e janelas foram encerradas e ficámos cerca de uma hora comprimidos num pequeníssimo espaço, tentando manter-nos quentes e protegidos dos ventos que levantavam painéis de madeira, projectavam objectos a grandes distâncias e fustigavam a cidade com um nevão como nunca tinha visto. Durante aquela hora, percebi pela primeira vez a impossibilidade de salvamentos perante condições tão adversas a maiores altitudes. Quando a tormenta amainou, fomos caminhando com muito cuidado (devido ao gelo que se formou imediatamente) de portada em portada e abrigo improvisado em abrigo improvisado, até ao relativo conforto do hotel – foi uma experiência imprevista e inesquecível. No dia seguinte, parecia estarmos numa cidade diferente e percebemos que não deveríamos subir ao Gyantse Dzong devido à ainda muita neve/gelo e à grande probabilidade de partirmos uma perna ou algo mais. assim, visitámos com cuidado o Pelkor Chode , realizámos alguns bonecos e rumámos a Shigatse.

Pelkor Chode: Rodeado por uma muralha avermelhada, era um centro de conhecimento pluridisciplinar composto por 15 mosteiros (fundado em 1418) agregando três diferentes ordens do Budismo tibetano: 9 da corrente Gelupka, 3 da Sakyapa e 3 da sub-ordem do Butão cujo principal centro era o mosteiro de Shalu, próximo de Shigatse. O Gyantse Dzong é um magnifico castelo que se notabilizou pela resistência de algumas centenas de monges tibetanos ao exército inglês em 1904 (que o destruiu quase totalmente com projécteis de artilharia).



TIBETE – LHASA A GYANTSE
28/07/2009, 01:43
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 Visitados os mosteiros, palácios e castelos nos arredores de Lhasa  e terminada com sucesso a aclimatação, arrancámos pelas 06H00 no “nosso” HDJ80 a gasolina em direcção a Gyantse, debaixo de um enorme temporal que nos deixava bastante apreensivos. O vento varria o planalto projectando a neve quase na horizontal e limitava a visibilidade a poucos metros à nossa volta. A opção de patirmos para Gyantse através das passagens de Khamba La (4.794 m), de Karo La (5.010m – o gps marcava 5.020…) e do Lago Yamdrok Tso permitiria, segundo as informações que tínhamos recolhido, uma viagem de sonho através de alguns dos mais fantásticos cenários do Tibete. Todavia, posso garantir que passámos ao lado do Chuwori sem que fosse possível sair do Toy ou obter uma foto que se aproveitasse, tal era a intensidade do nevão. Com esta opção, pretendiamos seguir a antiquíssima rota das caravanas que se dirigiam de e para Lhasa. Depois de passarmos o Khamba La (local onde foi tirada a foto que ilustra o blog) descemos, serpenteando em direcção ao planalto e ao espectacular lago de tonalidade azul turquesa em forma de escorpião – o Yamdrok Tso, um dos maiores do Tibete. Durante muitos quilómetros bordejámos o lago e “estabelecemos” contacto com yaks domesticados, após o que iniciámos a subida para a passagem de Karo La, próximo do local onde o exército tibetano enfrentou em vão as tropas britânicas em 1904. Entretanto, as condições meteorológicas foram melhorando e consegui fazer uns quantos bonecos que, melhor do que as palavras, ilustram a beleza da paisagem e a rudeza da vida daqueles que por lá habitam. Aqui ficam.