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ARGÉLIA # ALGERIE 2018: ORAN A DJANET (EP 2)

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D1 – 14 JAN (ORAN a TIARET: 245 kms)

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Como referido no artigo anterior, a Argélia é um enorme país, com cerca de 4,4 vezes a área da França. Pretendendo focar-me com maior detalhe nos cerca de 800 kms feitos em 4×4 e total isolamento, procurarei deixar-vos aqui algumas ideias gerais sobre os 2.400 kms iniciais, feitos de Oran até Djanet, reservando para o artigo final, uma breve avaliação meramente pessoal e comentários sobre as cidades de Oran e Ghardaia. Assim, como na expedição havia participantes de várias regiões de Portugal, combinámos encontrar-nos pelas 18H00 de 13 de Janeiro no porto de Almeria. Depois de um óptimo jantar, embarcámos rumo a Oran cerca das 23H00.

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PORTO DE ORAN

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Chegámos a Oran pelas 09H30, após cerca de 9 horas de navegação calma pelo Mediterrâneo (houve uns quantos expedicionários que não partilharam desta minha apreciação do estado do mar…). As verificações policiais e alfandegárias estavam a correr bastante bem, até que, inesperadamente, más notícias: informaram que uma das viaturas constava na base de dados da Interpol como tendo sido roubada. O proprietário explicou que, efectivamente, teria sido roubada há uns anos, e posteriormente recuperada e adquirida legalmente, mas, depois de várias horas de contactos, veio a confirmação do pior: teriam que se retirados todos os pertences (que foram distribuídos pela maioria dos outros veículos) e entregues as chaves e documentos até que houvesse autorização da Interpol para ser devolvida. Durante a espera, e embora soubéssemos que era proíbida a entrada de rádios de comunicações, tínhamos levado alguns portáteis que tiveram de ser entregues e ficaram em depósito até ao regresso. Deste modo, a tarde já ia avançada quando, finalmente, iniciámos a viagem de 5 dias, quase sempre escoltados pela polícia, gendarmerie ou equipas de segurança. A primeira tarefa, foi abastecer todas as viaturas. O gasóleo custava uns estonteantes € 0,15 (câmbio oficial 1: 140, mas variando entre 1:150 e 1:195), ou seja, meti 60 litros de bom gasóleo por 9,23 Euros – a “coisa” começava a melhorar!

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Apesar do rápido entardecer, ao deixarmos a autoestrada para Argel, a Polícia decidiu uma paragem para refeição numa pizzeria em Oued Tlelat (a comida não era má, mas o sistema de ventilação enchia as salas com o fumo que saía dos grelhadores no exterior). À saída, começámos a circular já na penumbra e, pouco depois, na mais completa escuridão, sempre escoltados e com os 4 piscas ligados, para uma mais fácil identificação. A alguns quilómetros de Tiaret, fomos interceptados por uma unidade militar especial, que assumiu a escolta, impedia ultrapassagens de viaturas estranhas que pudessem intercalar-se na coluna e nos conduziu a um bom hotel em Tiaret.

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Hotel Bouazza, Tiaret

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Provavelmente, devido ao adiantado da hora o jantar foi frugal. Todavia, talvez mais pelo nervosismo do sucedido na alfândega do que pelo cansaço (ou por tudo isso), a maioria dos participantes (impedidos de se ausentarem do hotel) meteram azimute aos respectivos quartos e procuram ter a melhor noite possível – no nosso caso, o triplo foi partilhado com o Calisto e o Brito.

D2 -15 JAN (TIARET a OUARGLA: 673 kms)

WIKILOC 2

O despertar foi violento para alguns, pela minha parte, habituado a despertar bem cedo, nada a apontar. A escolta chegou a horas e partimos por volta das 6H30, rumo a Aflou, onde reabastecemos, continuámos por Laghouat e entrámos na Transahariana. Por volta das 12H30, a gendarmerie deu indicação para pararmos e almoçar próximo do cruzamento para Bellil . Quase literalmente, fomos “trancados” numa pequena sala onde almoçámos rapidamente. Uns pacotes de Compal com defeito (estranhamente, continham verdadeiro “sumo de uva”) ajudaram afastar a sensação de claustrofobia.

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Regressados às viaturas, foram quilómetros e mais quilómetros sem grande interesse paisagístico, prejudicados pelo sol quase frontal. De quando em quando, víamos alguns Ergs ladeando a estrada. Esta, era boa (aliás, cumpre escrever que, genericamente, são boas) mas monótona. O objectivo era ultrapassar Ghardaia e continuar o mais possível para sul. Chegados à cidade em ritmo rápido, ficámos parados na estrada circular exterior bastante tempo; segundo me disseram, o guia tinha ido comprar abastecimentos. Entretivemo-nos a tirar algumas fotografias e a conversar amigavelmente com alguns elementos da escolta – curiosamente (ou não) havíamos de os reencontrar no regresso. Com o regresso do guia, correu a informação de que iríamos acampar no Oásis de Ouargla. Houve quem “rezasse” para ficarmos num hotel. Pela minha parte, estava entusiasmado, havia feito a minha pesquisa para a viagem e estava à espera do que se pode ver na foto que segue.

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Infelizmente, nem hotel, nem oásis. Por motivos que não foram explicados (supostamente: a nossa segurança), ficámos num descampado, irregular e com algum lixo, junto a uma rotunda com guarnição militar. A noite anunciou-se bastante fria e ventosa. As condições foram deploráveis,  amenizadas pela entreajuda dos participantes, pela compreensão dos militares que permitiram acesso através da rede ao WC deles e à montagem de algumas tendas no interior da vedação, pela inesperada confeção de uma  muito saborosa harira (sopa) pelo cozinheiro enviado (por engano) pela agência contratada e, fundamentalmente, pela animação proporcionada pelo ajudante deste, razoável tocador de viola e fabuloso conviva com os expedicionários.

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D3 – 16 JAN (OUARGLA a HASSI BEL GEBBUR: 440 KMS)

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Para não variar, o despertar foi novamente bastante matutino (tipo 05H00 de Portugal). Com a claridade a surgir constataram-se alguns estragos no acampamento e retemperaram-se as forças e o moral com um bom pequeno almoço também fornecido pela Mouflon. Saímos da malfadada rotunda em direcção a Hassi Messaoud e ficámos, pela primeira vez, uma eternidade à espera da escolta subsequente. Nesse ínterim, tivemos de improvisar um wc junto a uns arbustos de uma rua menos movimentada e reparar um fuga de líquido de refrigeração numa das viaturas. Quando finalmente chegou, os expedicionários de duas viaturas que não tinham adquirido cartões argelinos para o telemóvel pediram para serem “acompanhados” a um local de aquisição, oportunidade que eu e outro expedicionário decidimos aproveitar para reabastecer as nossas viaturas. Foram cenas dignas de um qualquer filme tipo 007, principalmente, na estação de serviço, em que o nosso “anjo da guarda”  de metralhadora ao peito, em posição de alerta,  não saiu da traseira do Toyota dos “Algarvios” (que abasteceu primeiro) e enquanto reabasteci. Este episódio foi filmado por esquecimento (a sony ficou ligada o tempo todo) mas quando editar, terei de tapar-lhe o rosto. Quando, finalmente, partimos, já era quase tempo de almoço, pelo que os gendarmes saíram da estrada nos arredores de Hassi Messaoud, dirigindo a caravana para uma zona plana, enquadrada por dunas, que alguns subiram para montar um perímetro de segurança. Tempo para almoçar: 30 minutos!

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ALMOÇO, COM SEGURANÇA ARMADA NAS DUNAS

Almoço ingerido rapidamente, lá partimos novamente em direcção a SE, até pararmos junto a uma base militar para nova rendição da escolta. A sombra proporcionada pelos arbustos que acompanhavam a rede de segurança da base proporcionou um conjunto de “wc low cost” bem arejadas para alguns aflitos. Para outros, deu para um pouco mais de “brincadeira”…

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Novamente a rolar e com alguns expedicionários a fazer contas aos vapores de gasóleo que restavam nos respectivos depósitos, chegámos a uma paupérrima estação de serviço, quase a fechar, mas repleta de camiões em fila para abastecer (Hassi Bel Gebbur, não havia mais nenhuma nas proximidades e era necessário muito mais que vapores de gasóleo para lá chegar). Penso ter sido por isso que os militares nos mandaram para mais um “fantástico” local de acampamento, a uns duzentos metros da estrada e no extremo oposto onde os camionistas paravam as suas viaturas para descansar. Pela minha parte, observámos um razoável pôr-do-sol, fiz um timelapse e dormi lindamente.

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D4 – 17 JAN (HASSI BEL GEBBUR a ILLIZI: 709 KMS)

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Pode parecer repetitivo, mas acordámos ainda mais cedo do que o já habitual e partimos para a única bomba de gasóleo antes de abrir. Investigámos os pequenos e rudimentares cafés de beira da estrada e um mais bem composto mini-mercardo e aguardámos a nossa vez. Como Os Toyota têm o bocal de abastecimento do lado esquerdo e os Land Rover do lado direito, havia viaturas à espera nos dois sentidos. Quando chegou a minha vez, um argelino intrometeu-se à frente, mas o funcionário da bomba refilou energicamente com ele e obrigou-o a recuar.  Obrigado. Depois de todos abastecermos, iniciámos o trajecto sem escolta, voltámos a ter escolta e deixámos de ter escolta no local onde começa a fantástica descida para um enorme planalto. Era caso para nos perguntarmos se a preocupação com a nossa segurança passou a ser intermitente… ou a escolta tinha a missão não declarada de controlar os nossos passos e já não era necessária pois não havia trajectos alternativos? Enfim, continuámos até ao cruzamento da N3 com a RN53 e, contrariamente ao que razoavelmente supúnhamos, enviaram-nos por uma estrada nova em direcção à Líbia!

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Ao cruzar a estrada Alrar # In Amenas, seguimos em frente, isto, apesar do sinal de estrada sem saída. Muitos de nós estranhámos, e um certo temor apoderou-se de alguns expedicionários. O telefone com cartão argelino tocava e perguntavam porque estávamos tão excessiva e desnecessariamente perto da perigosa fronteira com a Líbia… No final da estrada, havia mais uma base militar, com vários veículos blindados ligeiros e autometralhadoras. Quando se aperceberam da nossa presença (obviamente, não esperada) os militares entraram em alerta, correram para os postos de combate e apontaram armas à caravana. Não sabendo o que se estava a passar, aproximaram-se mais alguns expedicionários, perguntando-me porquê de tal situação, cuja resposta, obviamente, eu também não sabia. O nosso guia aproximou-se da porta de armas, conferenciou com um oficial (escoltado por militares) e tivemos de retroceder como se vê no mapa supra, seguindo mais para sul, junto à fronteira. A prova de que houve descoordenação é que, poucos minutos depois, parámos para almoçar e fomos “visitados” com alguma agressividade inicial pela gendarmerie, que nos pediu as autorizações para ali estarmos, supondo que éramos trabalhadores das refinarias…  Nas fotos, atrás do Parola, fica a Líbia…

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Esclarecido o assunto entre o nosso guia e os gendarmes, seguimos por uma estrada com alguns pontos de interesse, entre os quais uma fenomenal descida para um planalto a perder de vista, que apenas tenho registado em filme. De resto, foram quilómetros e quilómetros de estrada ladeada por inúmeros gasodutos até In Amenas e Illizi. Aqui chegados, andámos às voltas para encontrar uma loja ou oficina que tivesse umas peças necessárias para outra viatura e apanhámos um “seca” monumental no posto local da polícia, que deu instruções ao guia para acamparmos numa zona de dunetes à saída da cidade. Foi o primeiro bom bivouac, em círculo, aparentemente, com vigilância a uma distância que não importunava.

D5 – 18 JAN (ILLIZI a DJANET: 400 KMS)

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A noite foi calma e o acordar bem disposto, já “cheirávamos” Djanet… Todavia, sabíamos que os 400 quilómetros até lá seriam os menos rolantes, pois desenrolar-se-iam em estrada de montanha. A escolta apareceu à hora marcada e acompanhou-nos até à substituição. Pela minha parte, esta etapa foi a melhor até então, a variedade da paisagem não era deslumbrante, mas também não tinha nada de monótona, pelo contrário. Quando chegámos a Bordj El Haouas houve um stress com o comandante local, que reteve os nossos passaportes até chegarmos a Djanet, onde fomos muito bem recebidos. Logo de seguida, bazámos para o hotel, fosse para o primeiro banho desde Tiaret, fosse para reparações ou, simplesmente, apreciar o magnífico pôr-do-sol que emoldurou a nossa chegada. O dia seguinte, seria o primeiro da nossa aventura e todos ansiávamos por ela… O vídeo desta etapa de 5 dias, deverá ser publicado brevemente e actualizarei aqui o respectivo link.

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12 comentários so far
Deixe um comentário

ESPECTACULAR!!!!
… como sempre, brutal!
Abraço amigo Ventura!

Comentar por JPSILVA

Obrigado João Paulo.
Grande abraço e até sábado.

Comentar por 100azimutes

Fantástica descrição, impecável com os tracks, e tudo faz mais sentido quando ligamos a escrita à oralidade 😉 Abraço grande

Comentar por OuT There Overland

És um privilegiado…
Loool
Abraço

Comentar por 100azimutes

Eh, eh… 👍👍👍

Comentar por OuT There Overland

Muito bom! Ainda me fizeste rir com o “Compal”. Abraço.

Comentar por Francisco Silva

Também havia pacotes leite com xiripiti… e mais umas esquisitices que não dá para publicar…
Abraço

Comentar por 100azimutes

Olá.
Excelente relato e melhor para quem esteve lá…… obrigado bués.
Abraço

Comentar por Parola Gonçalves

Não há nada que se possa escrever que se aproxime da vivência que tivemos por lá.
Grande abraço

Comentar por 100azimutes

Andar por essas bandas, deve se andar com o coração nas mãos temendo que algo possa ocorrer a qualquer momento e em qualquer lado, mas deverá ser esse o principal motivo para a tornar emotiva e inesquecível!
Parabéns pelo relato, como já seria de esperar excelente.
Abraço

Comentar por Marques

Só posso falar por mim. Tive algum receio no dia da chegada, qdo nos apoximámos excessivamente da Líbia sem aviso/explicação, e no primeiro dia no deserto.No resto, quase todos os sucessivos elementos da escolta foram excelentes e creio que ninguém teve receio.
Abraço

Comentar por 100azimutes

[…] de um razoável jantar e uma noite muito bem passada no Hotel Tenere Village, chegou o momento por que mais ansiávamos: embrenharmo-nos nas ruelas e souk da Pérola do […]

Pingback por ARGÉLIA # ALGERIA 2018: DJANET A BIVOUAC 1 (EP 3) | 100azimutes




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